domingo, 27 de novembro de 2011

Conversas de galos

Este não é um conto Lispectoriano. Aliás, não é um conto de nenhuma natureza, uma vez que a minha simpatia com esta forma literária não se dá por meio da leitura, muito menos da escrita. A questão é que um copo de vidro cai, se estilhaça no chão e alguém grita. Um carro passa na rua, solta uma buzina e alguém grita. Um bêbado na rua dá grito divagante e, um outro alguém grita. Vem um vento forte e uma janela bate, uma porta também bate, as paredes estremecem e alguém grita. Qualquer barulho, qualquer som e alguém grita. Em BH, em dias de jogo ou não, por motivos de gol ou não, por motivos de conquista de novos títulos ou não, alguém grita, em qualquer lugar, em qualquer esquina, em qualquer janela, em qualquer carro, alguém grita, a plenos pulmões, força, garra, orgulho: GALOOOOO!!!!!

Eis que hoje, por qualquer motivo, eu também não resisti e gritei. Foi uma coisa meio libertária. Me senti gritando um palavrão ou xingando alguém. Sei lá o que isso possa significar. Havia algo como: “ok, vocês venceram, eu entrei pro jogo!”. Estarei eu, nos territórios belzontinos, virando galo por acidente ou contágio? Me lembrei daquela teoria do canto do galo, em que se pondera sobre o fato de que um primeiro galo canta ao ver um raio de sol, e desencadeia outros cantos de outros galos que, ao ouvir um, vão repetindo o canto também, como um efeito dominó que vai se alastrando por todo o planeta. (Não sei se isso vem de algum conto, poema ou teoria semiótica. Só lembro que estudei isso nas aulas de ética, lá no último período da universidade, sobre ordem do discurso e inexistência do autor, e foi muito legal). 

Foi essa uma das primeiras coisas cotidianas que me chamou atenção aqui em Belo Horizonte (além da carne de porco que está presente em todos os pratos). Toda e qualquer pessoa curte – viciadamente - futebol. Até quem diz que não gosta, confere o resultado do jogo. Eu, que inicialmente morei numa república com umas 11 meninas que faziam o pré-vestibular (isso mesmo: ONZE menininhas), fiquei um pouco surpresa quando notei que aquelas garotas, quando não estavam estudando, pitando unha ou alisando os cabelos, estavam grudadas na TV vendo jogo. E elas torciam mesmo, de verdade, e se transformam diante daquela coisa. 

Tirando os fatos absurdos desse universo: o salário dos jogadores e o que eles fazem da vida deles, virando estrelinhas, astros, ídolos, e são “elementos” estranhíssimos que se tornam – de qualquer jeito – o orgulho do país; usam chuteiras coloridas, lançam penteados da moda (o “estilo jogador de futebol”[???]) etc etc etc... Tirando isso tudo (aliás, eu não entendo nada – absolutamente nada – de futebol), acho realmente muito curioso - e até fascinante - o fato de as pessoas se familiarizarem umas com as outras, rapidinho, quando falam dos seus times. Uma relação de companheirismo, amizade e fidelidade é firmada, simplesmente, porque você descobre que outra pessoa torce pro mesmo time que você. E, de repente, as pessoas ficam abertas para conversar na maior alegria, seja com quem for, seja onde for...

Enquanto isso, eu, que sempre olhei pro futebol como uma coisa chata de menino, me pego na ironia de gritar GALOOOO sem nunca saber se Galo é o Cruzeiro ou o Atlético. Só sei que propagar esse grito do galo é bom demais. ;)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Acreanices

Ou a verdade sobre os rios


Eu já estava no quarto degrau das escadas quando avistei o Carpinejar. Ele havia me acompanhado durante alguma viagem que nem lembro qual. Mas o esqueci aqui, em Rio Branco. Lá em BH, li e falei muito mal, e assim ficou a leitura incompleta. Insisti porque me fez lembrar – muito – a época em que Luiz Fernando Veríssimo – e Matheus – me roubava o recreio com “As mentiras que os homens contam”. Tempo bom, ô txai! Foi no yoga que eu olhei para o espelho e lembrei o recado de batom. Ri e suspeitei que a história pudesse ser bonita – além de ser de amor.

Já beiravam as oito da noite de um sábado interminável quando, depois de quatro curtas sem sucesso, tomei algumas notas, em um guardanapo de papel miúdo, que me deixaram o Acre mais coerente. Em breve eu embarcaria.

Estava diante de Artur, um rapaz hiperativo, ansioso, que respira pouco e fala muito. E fala de tudo. Desventuras de mochila, lingüística e teatro grego. Já viajou meio-Brasil, tem planos para conhecer o exterior. É historiador, cinéfilo e leitor de contos policiais para distrair. Também havia Rita, carioca, desprendida, autônoma. Morou no Acre dois anos. Mora em BH há uma semana. Conhece pouca coisa e ninguém. Gosta de arte circense, de caminhar à noite. Fala baixo e ouve muito. Mas foi Rodolfo, num instante seguinte, quem assumiu o comando do filme. “Família vende tudo”, poderia ter sido bem pior. O cara é especialista em lazer. PhD em diversão. D’outro mundo.

Algumas daquelas gaitices sobre o Acre devem estar nas rapidinhas do Zé Leite, nas entrelinhas do Garibaldi Brasil, pelos barrancos do rio ou pelo twitter. Ríspido, amargo e doloroso. São estes alguns dos diversos significados do nome. E a vida aqui segue estes rumos. Falando em rumos, aliás, a gente, do Acre, tem uma tendência a alterá-los o tempo todo. Mudar de idéia, renovar trajetos, arriscar e esboçar outros percursos – não atalhos. Assim são nossas ruas e nossos rios: sinuosos e tortuosos. Basta uma enchente para tudo se refazer. Por essas e outras, que a cidade pára para ver a chuva passar e o planejamento é tão difícil.

A gente, no Acre, resiste sim a tudo que é novo, de fora, desconhecido. Primeiro é por uma tendência natural e espontânea a viver e promover resistências, embates, empates, briga, guerra, revolução, qualquer coisa do tipo. Segundo, é uma tendência, também natural e espontânea, a promover o que há de mais caseiro, a entrega ao isolamento, pequeno, tímido, miúdo e certeiro. Deve haver algo de antropológico nisso. Consegui visualizar origens antigas, os primórdios, lá na floresta onde nunca estive. Me falta escuta para contar este lado da história. Sei é que crescemos e fomos criados assim: ora na fuga, ora no enfrentamento.

A gente, do Acre, apressa pedindo: “cuida”; a gente manifesta carinho dando beliscão, trincando dente e apertando o beiço no ato de “reinar”. O abraço aqui é quente, longo, suado. Por vezes, venenoso. Os muros são baixos e a vida política e profissional é de quintal. As pessoas precisam, antes, estar bem com elas mesmas, para, depois, lidar com o mundo afora. Tudo é personificado, pessoalizado, individual. Haja coração. “O que não mata, fortalece”, diz um irmão meu.

É por essas e outras que preciso, constantemente, da minha dose de Acre. Pois quem é capaz de suportar e encarar o Acre é capaz de viver qualquer coisa. Marrapaiz.

ps: a foto era pra ter sido uma que aparece uma catraia atravessando...